Sento às margens do rio para refletir. A água
tranquila funciona como um espelho e devolve a minha própria imagem – nítida,
brilhante, revelando instintos expostos, emoções desordenadas. Sei que o tempo guarda
todas as respostas, mas, mesmo entendendo o cenário ao meu redor, não consigo
ouvi-las. O que escuto é apenas o silêncio, um silêncio que se acomoda ao meu
lado como uma companhia serena, quase amigável.
É então que, como um filme silencioso, vejo teu
semblante surgir na memória. Há tristeza, amargura, cansaço. Há um peso que não
consigo explicar. Um nó, sobe pela minha garganta, apertando como se mãos invisíveis
tentassem impedir que qualquer palavra escapasse. As lágrimas contidas, pedem
libertação. E como finalmente permito que venham, elas deslizam pelo meu rosto
e molham minha pele, levando consigo um pouco do que me sufoca. O sorriso que
sempre esteve estampado em mim, desaparece – some sem aviso, como truque de
ilusionista.
Sinto o frescor da manhã tocando meu rosto, como se
fossem mãos suaves acariciando minha pele. A natureza ao redor transforma o
espaço em um refúgio, um pequeno abrigo onde posso descansar meu corpo e aliviar
a mente. Meus pés tocam de leve a água e, ao mínimo movimento, círculos se
formam, desenhando imagens que lembram mandalas – figuras quase sagradas, que
parecem guardar em si algo de cura.
Encontro ali um momento raro de paz, entre o vento que passa devagar e a correnteza da água. Não consigo explicar o que sinto, pois, naquele momento não preciso mostrar minha fortaleza. Continuo a observar a água, ouvindo o silêncio e pouco a pouco o mundo dentro de mim se reorganiza.
Rita Padoin
Escritora

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