Dentro do vazio há uma lacuna cheia de verdades.
Rita Padoin
Enquanto as coisas permanecem confusas,
estendo as mãos e me esforço para entender o que possa estar acontecendo. Crio
minhas próprias expectativas dentro do espaço onde me sinto segura. São todas
as minhas loucuras presas num quarto escuro – e, por enquanto, não pretendo
soltá-las.
Em cada canto desta casa, as paredes estão
velhas e desgastadas. Preciso me organizar e compreender o que aconteceu. Encontrar
a casa neste estado me abalou demais.
Não esperava que as coisas estivessem assim
– tão desoladas, tão esquecidas, tão abandonadas. Estou tentando recolocar tudo
no seu devido lugar. Tornar o ambiente habitável, leve, respirável. Só assim
conseguirei sobreviver em meio a esse caos – nessa bagunça que ficou entre a
ida e a volta.
Há palavras soltas dentro de mim, querendo
se libertar. Há gaiolas invisíveis tentando me prender. Há lágrimas presas, desejando
sair sem ser convidadas. Quantos dias de espera...os minutos são lentos, e as
horas se arrastam como cobras rastejando pelo chão.
A vida é um estranho caminho a percorrer.
No silêncio das noites frias e intensas, sinto minhas emoções aflorarem de tal
forma que não consigo contê-las. No intervalo das minhas decisões, revivo meu
passado – ele me parece tão distante, como se eu nem tivesse passado por lá.
O meu presente, na verdade, é o que me
mantém viva, pois é nele que habito agora.
O presente vibra dentro de mim. Sinto uma
energia forte. De um lado, um sopro sussurra que preciso viver intensamente. Do
outro, meus instintos me sacolejam para que eu acorde. Mas como viver o hoje
com pendências? Com coisas que precisam ser resolvidas, com pessoas precisando
de mim?
Não há como viver como se não houvesse
amanhã se essas pendências continuam batendo à minha porta. De que adiantaria viver
com o peito apertado, com a angústia me sufocando? Não adiantaria nada. Só
consigo viver bem se eu estiver em paz.
Espero que todas essas pendências se
resolvam o quanto antes. O tempo está curto, e o tempo que me resta parece
escapar pelos dedos. Mas, se tudo se resolver logo, caberá a mim aproveitar o
pouco que resta – com leveza e com sabedoria.
Rita Padoin
A vida tem me mostrado que nada é fácil.
Eu sei: é difícil. Sei também que essa parede que divide nossa história, está por
um triz de ser destruída – a um passo do reencontro. Não entendo por que tudo precisa
ser tão complicado, mas compreendo que é preciso ter calma. Tudo no seu tempo.
Aprendi na caminhada que há passagens
pelas quais precisamos atravessar para crescer. Só que essa demora...essa
demora corrói por dentro. É preciso estar em um patamar muito alto para
sobreviver a tudo isto.
Meus dias estão contados, e as horas não
tem pena de ninguém. Correm – impiedosas. Os anos, então, nem olham para os
lados. O ano começa e, quando percebo, já é fim de ano. Nesse intervalo entre
um ano e o outro, sinto meus passos mais lentos.
Conheço as fissuras por onde o vento entra
e a chuva se infiltra pelo mesmo caminho. Conheço as entranhas invisíveis, os palcos
onde, além de mim, ninguém tem coragem de atuar.
O tempo – esse grande ator – diz que já me
avisara sobre tudo. São sensações estranhas que se instalaram em mim e não
querem mais partir. Pensei em levantar e seguir, mas seguir sem um plano, seria
apenas mais um tropeço.
A vida tem um script e, de alguma forma,
todos estamos tentando seguir o nosso papel.
Falésias íngremes, no meio do nada, fazem morada.
Meu olhar se perde entre o vazio e o instante de inspiração. As rochas parecem
mortas, mas, ao observá-las atentamente, vejo que há vida, há história, há
beleza, há transformação, há mistério. Isso acontece quando conseguimos abrir
as cortinas internas, e captar a essência que ali habita – o verdadeiro remédio
da cura.
Cada passo traz a sensação de que estamos lutando
por um lugar onde possamos, enfim, nos encaixar. Nos limites do tempo, há um intervalo
silencioso à espera de que compreendemos seu ensinamento e sua postura diante
da pressa daqueles que tentam seguir sem perceber.
Meus passos estão, a cada dia, mais lentos. Não quero
mais correr. Não quero ter pressa. Não quero tropeçar. Quero entender. Quero mudar.
Quero viver intensamente, sem ter que olhar para trás e revisitar o passado. Quero
um olhar voltado ao futuro – um olhar de sucesso, de vida que me espera.
Hoje, penso apenas no agora e no que está por vir...
Rita Padoin
Sento às margens do rio para refletir. A água
tranquila funciona como um espelho e devolve a minha própria imagem – nítida,
brilhante, revelando instintos expostos, emoções desordenadas. Sei que o tempo guarda
todas as respostas, mas, mesmo entendendo o cenário ao meu redor, não consigo
ouvi-las. O que escuto é apenas o silêncio, um silêncio que se acomoda ao meu
lado como uma companhia serena, quase amigável.
É então que, como um filme silencioso, vejo teu
semblante surgir na memória. Há tristeza, amargura, cansaço. Há um peso que não
consigo explicar. Um nó, sobe pela minha garganta, apertando como se mãos invisíveis
tentassem impedir que qualquer palavra escapasse. As lágrimas contidas, pedem
libertação. E como finalmente permito que venham, elas deslizam pelo meu rosto
e molham minha pele, levando consigo um pouco do que me sufoca. O sorriso que
sempre esteve estampado em mim, desaparece – some sem aviso, como truque de
ilusionista.
Sinto o frescor da manhã tocando meu rosto, como se
fossem mãos suaves acariciando minha pele. A natureza ao redor transforma o
espaço em um refúgio, um pequeno abrigo onde posso descansar meu corpo e aliviar
a mente. Meus pés tocam de leve a água e, ao mínimo movimento, círculos se
formam, desenhando imagens que lembram mandalas – figuras quase sagradas, que
parecem guardar em si algo de cura.
Encontro ali um momento raro de paz, entre o vento que passa devagar e a correnteza da água. Não consigo explicar o que sinto, pois, naquele momento não preciso mostrar minha fortaleza. Continuo a observar a água, ouvindo o silêncio e pouco a pouco o mundo dentro de mim se reorganiza.
Rita Padoin
Escritora
Vivo grandes
momentos da minha história – cada um, sob ângulos diferentes, olhares diferentes,
maneiras diferentes. São as minhas perspectivas diante do meu ideal e das minhas
expectativas. É natural me sentir ansiosa diante de um acontecimento.
Não fui feita para
construir um mundo sólido e resistente ao meu alcance. Sou feita de carne e
osso – e sofro por consequência de um passo em falso, de uma crise amorosa, de
um evento inesperado. Sofro antecipadamente por qualquer coisa que fuja do meu controle
ou dos meus sonhos coloridos.
Quando preciso
caminhar por entre vales desconhecidos, sinto, de início, uma certa angustia querendo
se libertar de dentro de mim. É como se meu corpo fosse uma cela com barras de
ferro, e minha angústia, ali dentro, pedisse socorro. Mas, não desisto.
Continuo o caminho firme, sem deixar abater.
Meus passos são
lentos, e o vale que percorro tem gosto de primavera. As flores que encontro pelo
caminho ajudam a libertar, aos poucos, a angústia que mora em mim.
Rita Padoin
Escritora
Ser Poeta é transformar a dor em arte. Em cada verso as palavras encontram abrigo e ganham asas para a imaginação.
Rita Padoin